segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A farsa da romaria e as chamas do Caldeirão

A farsa da romaria e as chamas do Caldeirão


A experiência do Caldeirão baseada na partilha da produção e na
religiosidade popular merece o resgate histórico sem a maquiagem das elites e da igreja católica.
Às vésperas de completar 73 anos do massacre ocorrido no sitio Caldeirão no Crato pelo Exercito e pela policia militar do Ceará, com o apoio das elites e da diocese. Pouco se sabe sobre a história e as atrocidades cometidas contra homens, mulheres e crianças e idoso que almejavam desfrutar da terra que um dia inventaram de cercar.
O Caldeirão foi um exemplo de utopia possível. Em poucos anos cresceu a
população da comunidade, chegando a cerca de dois mil habitantes.
Camponeses advindos de diversas localidades e fugindo da exploração
latifundiária acreditavam que a comunidade do Caldeirão era terá da
prosperidade.
Uma comunidade autosustentável na qual seguia a lógica socialista de
produção social e apropriação coletiva, ou seja, tudo que era produzido
passava pela divisão.
Uma terra “emprestada” pelo padre Cícero, ao beato José Lourenço e à sua
comunidade serviu do pão de esperança e fraternidade, mas após a morte do
padre, a terra foi requerida pelo uso da força e a pedidos dos salesianos. Vale destacar que quase todos os bens do Padre Cícero foram doados em
testamento para congregação dos salesianos.
Qual a ameaça que essa comunidade representava para a igreja católica e a
para os latifundiários? A quem interessava a destruição sangrenta destes
camponeses?
É bem verdade que a história nos aponta alguma pista, uma desta é a
ameaça à propriedade privada. Em Canudos ou na Guerrilha do Araguia, o
massacre ocorreu em defesa dos poderosos, sejam eles os donos das terras
e das fabricas ou dos comerciantes da fé.
A revitalização do Caldeirão proposta pelo Governo do Estado em parceria
com o governo municipal do Crato deve passar pelo resgate histórico e pela
garantia de sustentabilidade e das melhorias das condições de vida da
população do local, o que deve incluir a valorosa experiência de resistência dos camponeses do Assentamento 10 de Abril e a historiografia dos índios Kariri que residem nas terras próximas ao Caldeirão e que tem histórias semelhantes, a idéia de poder cultivar e manter o meio ambiente como forma de sobrevivência e comunhão.
O povo brasileiro tem o direito à memória e a verdade dos fatos. Neste sentido é preciso não camuflar, nem permitir a hipocrisia como lençol da história. A verdade não pode ser apagada em romarias, como vem ocorrendo nos últimos anos. É preciso fazer uma leitura crítica, pois ainda podemos escutar os gritos dos cristãos que morreram inocentemente por fazerem do discurso uma prática.
Pela abertura irrestrita de todos os arquivos do Caldeirão e pelo direito à verdade dos fatos.

Alexandre Lucas - Coordenador do Coletivo Camarada, Pedagogo e Educador Artistico

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